O fim das Soft Skills

 

Por: Henrique de Castro Neves

 

Você pode achar estranho que este artigo tenha um título tão direto e talvez, intrigante, mas a verdade é que na velocidade em que o mundo atual muda, conforme o contexto se modifica, expressões e jargões também precisam se adequar. Os termos hard-skills e soft-skills surgiram em 1972, nos manuais das forças armadas norte-americanas, com o objetivo de humanizar os militares e aproximá-los da sociedade. Quase meio século depois vimos escutamos estes termos como nunca.

 

O mundo corporativo, por mais que tente ou desgoste, não consegui fugir das expressões em inglês, pois grande parte dos jargões ou nomenclaturas nascem na terra do tio Sam e acabam soando bem. É assim também na gestão de pessoas, que ao invés de habilidades trata tais características com a palavra em inglês skill (cuja tradução é exatamente habilidade!). Retomando a proposta da década de 70, aceita e incorporada mundo afora, onde as habilidades foram separadas em duas caixas: hard (em português: duro, difícil) e soft (traduzindo: macio, suave). Isoladamente as expressões parecem sem sentido, mas quando combinadas, hard-skillsganham mais significado como ‘habilidades difíceis’, e soft-skills como ‘habilidades interpessoais’, ou seja, aquilo que normalmente nos orgulhamos em colocar no currículo por ostentarmos diplomas e certificados são as hard-skills e nossas características essencialmente humanas são as soft-skills.

 

Criado o contexto, de forma extremamente objetiva, a intenção deste texto é sacrificar não o significado, mas sim a expressão utilizada para descrever aspectos e características que nos definem como seres humanos, bem além de nossos títulos e formações acadêmicas. Ou seja, a ideia é rebatizar o termo amplamente utilizado soft-skills para habilidades humanas. A proposta não é apenas para modernizar o jargão ou “reinventar a roda”, mas também – e principalmente – para que em tempos tão sombrios e complexos quanto ao que se pode/deve ou não dizer/fazer tenhamos uma expressão que tenha mais significado e se torne algo mais natural. E não pense que tal ideia nasceu da cabeça deste autor! Felizmente tal proposta já circula há alguns anos, mas parece que na pandemia ganhou mais apoiadores, como por exemplo, o britânico Simon Sinek, criador do “círculo dourado” e muito popular entre empreendedores de todo o mundo por colocar o propósito da organização no centro de qualquer iniciativa, seja ela empresarial ou pessoal.

 

Outro ponto muito importante para o debate é o fato de alguns (poucos) autores vêm promovendo nos últimos anos que ter um diploma ou estudar não é importante, pois muitos empreendedores deram certo, começando na garagem de casa e sem concluir uma graduação sequer. Quando tudo dá certo e o empreendimento emplaca, se tornando um sucesso, o empreendedor é genial e recebe inúmeros outros elogios a seu respeito, contudo, quando a coisa não engrena e dá errado, normalmente é porque faltou estudo e qualificação ao protagonista do insucesso. Ou seja, não há verdade absoluta, da mesma forma que qualquer profissional pode ser o maior empreendedor do mundo como colaborador. Sim, não existe na etimologia da palavra empreender uma cláusula mandatória dizendo que o indivíduo precisar ter seu negócio para ter paixão, persistência, brilho nos olhos, comprometimento, cabeça de dono e tantos outros atributos que só um verdadeiro empreendedor possui.

 

Sabemos que a pandemia nos apresentou um monte de coisas ruins, mas como tudo na vida, há também o lado bom, especificamente, em linha com nosso tema, algo que certamente muitas famílias estão pensando e/ou forçosamente compreendendo é o papel da escola na educação de crianças e jovens. Nas últimas décadas houve uma forte distorção com relação ao que esperar do ensino formal, com uma significativa parcela dos pais acreditando que na escola a criança seria educada. De fato, a escola nos ensina diversas coisas além das matérias e disciplinas da grade curricular, como por exemplo, como nos socializar, mas a educação ligada a nossas habilidades humanas deve vir de casa, daquilo que aprendemos com nossos pais, mães e familiares, em geral aprendido mais pelo exemplo do que por belos discursos. E sim, também é possível desenvolver tais habilidades mais tarde, mas é um caminho mais dolorido e difícil.

 

Então, que possamos valorizar mais as habilidades humanas, não obstante à importância das hard-skills, afinal, não é o diploma que nos transforma em verdadeiros profissionais, mas sim, deve nos servir para abrir portas, como muitos pensadores já compartilharam em frases de efeito, e que de fato faz muito sentido, somos contratados por nossas hard-skills, mas permanecemos e crescemos nas organizações em função de nossas habilidades humanas. Atualmente, precisamos MUITO destas habilidades, então, o que não vier de berço precisa ser desenvolvido, e rápido!!!