O desafio das micotoxinas na cadeia láctea
As micotoxinas, substâncias tóxicas produzidas por fungos, representam um risco significativo e muitas vezes invisível na cadeia produtiva de alimentos, especialmente no setor lácteo. Originadas principalmente na silagem de milho, essas toxinas podem comprometer a saúde animal e, consequentemente, a segurança dos alimentos do consumidor final, que pode ser exposto a resíduos no leite e na carne
A origem do problema: silagem e fungos
O problema das micotoxinas na cadeia láctea tem seu epicentro na conservação da silagem, um volumoso fundamental para a alimentação de rebanhos, especialmente em períodos de escassez de pastagens. Com isso, a qualidade da silagem depende de um processo de ensilagem adequado, que garanta boa compactação e um ambiente anaeróbio (ausência de oxigênio).
Diante disso, quando a silagem é mal vedada ou exposta ao oxigênio após a abertura do silo, ocorre o crescimento de fungos. Ademais, dependendo da espécie, esses fungos produzem micotoxinas que não apenas reduzem o valor nutricional do alimento, mas também causam perdas econômicas substanciais para os produtores rurais.
Impactos na saúde animal
Os impactos das micotoxinas nos animais são amplos e preocupantes. Sendo assim, elas estão associadas a distúrbios metabólicos, queda na produção de leite, comprometimento do sistema imunológico e problemas reprodutivos nos rebanhos. No entanto, a maior preocupação reside na possibilidade de que resíduos dessas substâncias sejam detectados no leite, elevando as questões de segurança dos alimentos para os consumidores.
Pesquisa e soluções inovadoras
Uma pesquisa conduzida na Universidade Federal de Lavras (UFLA), sob a liderança da professora e pesquisadora em Zootecnia Carla Ávila, tem investigado estratégias para mitigar a deterioração da silagem e, consequentemente, a presença de micotoxinas. Com isso, o estudo focou no uso de inoculantes microbianos aplicados no momento da ensilagem. Ademais, esses produtos contêm bactérias que direcionam a fermentação, promovendo a produção de ácidos orgânicos e inibindo o desenvolvimento de microrganismos indesejáveis.
Entre as cepas testadas, uma bactéria isolada de silagens produzidas em Minas Gerais demonstrou resultados promissores. Assim, a silagem tratada com esse inoculante apresentou menor crescimento de microrganismos associados à deterioração, maior estabilidade aeróbia após a abertura do silo e redução das perdas de matéria seca. Além disso, as análises indicaram uma menor concentração da micotoxina detectada na silagem tratada em comparação com a não tratada.
Benefícios e perspectivas futuras
Os resultados da pesquisa reforçam o papel da tecnologia como aliada na sanidade e eficiência produtiva. Além de uma melhor conservação da silagem, há uma redução significativa do risco sanitário, beneficiando tanto o produtor quanto o consumidor de leite e carne. Desse modo, o trabalho, financiado pela FAPEMIG e FUNDECC, exemplifica como a pesquisa científica pode contribuir diretamente para a sustentabilidade da produção agropecuária e para a confiança do consumidor em um cenário de crescente exigência por segurança dos alimentos.
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