Cultivo de triticale no Cerrado amplia oportunidades para a indústria de alimentos
Análises de qualidade industrial realizadas em 2026 indicam que o triticale, cereal desenvolvido a partir do cruzamento de trigo com centeio, pode ser usado em produtos para alimentação humana, principalmente biscoitos. Os testes de panificação e confeitaria foram feitos pela empresa mineira Vilma Alimentos, em parceria com a Embrapa Trigo (RS), com a cultivar BRS Saturno, avaliada no Cerrado Mineiro.
Substituição total em dois produtos
A empresa avaliou a farinha de triticale em 11 produtos. Em seis deles o uso foi viável, e em dois foi possível substituir totalmente a farinha de trigo sem perda de qualidade. Segundo a Embrapa, na produção de biscoitos moldados a troca pode chegar a 100%, com boa expansão e atributos semelhantes aos do produto feito apenas com trigo.
Substituição parcial em outros quatro
Nos demais, a substituição é parcial: biscoito de maisena, wafers, bolos e pizzas. No biscoito laminado doce, os testes indicaram que até 30% da farinha de trigo pode ser trocada por triticale, mantendo textura, cor e sabor. Na panificação, a mistura indicada é de 50% de trigo e 50% de triticale, limitada a pães de baixo crescimento, porque a farinha de triticale é mais escura e tem menor força de glúten.
Menos aditivos químicos
Para a pesquisadora Jane Machado, da Embrapa Trigo, a indústria de biscoitos deve ser um dos principais mercados do triticale no Cerrado, porque o cereal garante crocância e firmeza e permite eliminar aditivos químicos usados para obter esses atributos. Ela também destaca que os grãos, inteiros ou moídos, podem ser usados em cereais matinais e produtos dietéticos.
Produtividade acima do esperado em Minas Gerais
Em Carandaí, na Zona da Mata Mineira, foram conduzidos experimentos em oito hectares, com oito cultivares. A semeadura foi em maio e a colheita em setembro, sob irrigação. A produtividade média do triticale no Cerrado varia de três a quatro toneladas por hectare em sistema irrigado, mas algumas parcelas passaram de cinco toneladas, segundo o engenheiro agrônomo Luiz Tarcísio Behm, que destacou a sanidade e a boa formação das espigas.
O pesquisador Osmar Conte lembra que o cereal também tem bom desempenho potencial em sequeiro, por sua tolerância à seca e adaptação a solos ácidos e arenosos, mas nem todas as cultivares testadas são indicadas para produção de grãos no Cerrado. Novas avaliações após a colheita vão embasar as orientações técnicas.
Cultura ainda fora das estatísticas
O cultivo de triticale no Cerrado ainda não aparece nas estatísticas oficiais, mas isso pode mudar com a adaptação de novas cultivares e o interesse da indústria de alimentos. No Brasil, o cereal é usado principalmente no Sul, como forragem e ração para suínos e aves, e a destinação à alimentação humana ganhou impulso com o marketing dos alimentos funcionais.
Fonte: Embrapa
Imagem: Magnific