Relatórios da Flórida sobre metais em doces e fórmulas infantis geram questionamentos científicos
Relatórios divulgados pelo programa Healthy Florida First, nos Estados Unidos, levantaram preocupações sobre a presença de metais pesados em fórmulas infantis e doces. No entanto, especialistas afirmam que a ausência de informações metodológicas compromete a interpretação dos dados.
Desde o anúncio da iniciativa pela primeira-dama da Flórida, Casey DeSantis, o programa publicou relatórios apontando níveis elevados de metais tóxicos em fórmulas infantis e níveis considerados inseguros de arsênio em doces. As informações foram divulgadas em um site específico da iniciativa.
Falta de transparência metodológica nos testes
Os relatórios não apresentam detalhes sobre os critérios utilizados, número de amostras analisadas, comparação entre lotes ou limites de detecção laboratorial. Também não esclarecem se os resultados representam médias de múltiplas amostras ou análises isoladas.
Segundo informações divulgadas ao Daytona Beach News Journal, o Departamento de Saúde da Flórida utilizou o Método 6010D da EPA para análise multielementar de metais. Esse método é tradicionalmente aplicado a matrizes ambientais, como solo, e não especificamente a alimentos industrializados.
Especialistas apontam que há diferenças técnicas relevantes entre matrizes ambientais e produtos alimentícios. A utilização de metodologia inadequada pode gerar resultados enviesados e dificultar a interpretação científica.
Identificação de perigo não é o mesmo que avaliação de risco
Outro ponto destacado por toxicologistas é a diferença entre identificar um perigo e avaliar risco real à saúde.
Perigo representa a capacidade potencial de uma substância causar dano. Risco envolve probabilidade e nível de exposição. A simples presença de um contaminante não significa, necessariamente, risco concreto à saúde.
Os relatórios não detalham quais modelos de avaliação de risco foram utilizados, nem quais premissas ou parâmetros de exposição foram considerados.
Toxicidade e carcinogenicidade: conceitos distintos
O Departamento de Saúde da Flórida afirmou ter utilizado níveis de risco mínimo estabelecidos pela Agency for Toxic Substances and Disease Registry para avaliar o arsênio em doces. No entanto, não especificou se considerou parâmetros de exposição aguda ou crônica.
Especialistas também apontaram possível confusão entre efeitos tóxicos e carcinogênicos. Embora os níveis mínimos de risco sejam baseados em desfechos toxicológicos, o relatório mencionou potenciais riscos de câncer sem esclarecer a base científica utilizada.
Impacto na comunicação com consumidores
Do ponto de vista científico, a divulgação de dados sem contexto técnico adequado pode gerar interpretações alarmistas. A ausência de explicações claras dificulta que consumidores compreendam se os produtos representam risco real.
Especialistas destacam que relatórios sobre contaminantes devem apresentar metodologia, limites de detecção, comparação com valores de referência e contextualização de exposição. Sem essas informações, cresce a insegurança do consumidor e aumenta o risco reputacional e regulatório para a indústria.
Em 10 de fevereiro de 2026, a Flórida publicou um terceiro relatório no âmbito da iniciativa Healthy Florida First, desta vez abordando glifosato em pão.
Imagem: Freepik
Fonte: https://www.food-safety.com/articles/11116-scientists-say-missing-data-in-florida-reports-on-metals-in-candy-infant-formula-create-confusion