Uso de pré-dipping a base de iodo e o risco de contaminação do leite

*Autores do artigo: 

Jakeline Fernandes Cabral > Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Zootecnia (PPZ) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – PR.

Geraldo Tadeu dos Santos > Professor Titular do Departamento de Zootecnia da UEM, Docente do PPZ

controle da mastite implica em diversas medidas de prevenção cujo objetivo final é reduzir a prevalência da enfermidade no rebanho. Como a doença tem origem microbiana uma das medidas de prevenção é evitar que os microrganismos penetrem no canal do teto e infecte a glândula mamária.

A ideia de usar pré-dipping como forma de prevenção de mastite teve início na década de 60, quando Newbould e Barnum (1960) demostraram que a desinfecção era capaz de reduzir a microflora de bactérias nos tetos, especialmente a Staphylococcus aureus. Posteriormente novos estudos foram realizados e desde então foi provado que o uso de pré-dipping é a forma mais eficaz dentre as medidas de higiene no controle e prevenção da mastite. No entanto, é atualmente a prática de manejo mais adotada e recomendada em vários países.

Desta maneira, a prática de uso de desinfetantes que apresentam ação germicida antes da ordenha (pré-dipping) e após a ordenha (pós-dipping), é o meio mais usado pelos produtores, além de ser caracterizado como um dos manejos mais importante no controle da infecção das glândulas mamárias.

Figura 1: Aplicação de pré-dipping. Fonte: arquivo pessoal.

Atualmente o mercado oferece diversos produtos pré-dipping que apresentam diferentes fórmulas para controlar o crescimento dos microrganismos. Dentre os mais comuns estão os que contêm os princípios ativos: iodo, ácido lático, peróxido de hidrogênio, cloro (clorexidina e hipoclorito), compostos fenólicos e ácido dodecil benzeno sulfônico (ADBS). A escolha do produto, contendo um destes princípios ativos, fica a critério do produtor que considera o custo benefício, à eficiência, dentre outras características.

Todavia, o iodo é um dos princípios ativos amplamente utilizado na prática de manejo de ordenha, pois é um agente germicida eficiente para matar e inativar bactérias, vírus e cistos de protozoários.

O uso de soluções iodadas é mais recomendado na realização de pós-dipping, porém na prática, o que se vê em muitos casos é a sua utilização também para execução de pré-dipping. Esta prática tem sido apontada como um fator de aumento na concentração de iodo no leite por contaminação direta e também por absorção pelo epitélio dos tetos (Conrad & Hemken, 1978; Flachowsky et al., 2007; Galton et al., 1984).

Em um estudo O’Brien et al. (2013) avaliaram os efeitos da desinfecção dos tetos com soluções contendo diferentes concentrações de iodo sobre a concentração de iodo no leite e observaram que a desinfecção dos tetos influenciou na concentração deste mineral no leite, resultando em um aumento considerável.

O consumo de leite com maior concentração de iodo pode ter efeitos adversos no organismo humano devido seu papel na atividade celular, no desenvolvimento do cérebro e da glândula tireoide. A deficiência ou excesso de iodo na alimentação pode interferir na produção de hormônios tiroidianos, que são fundamentais no bom funcionamento do metabolismo (Ouattara, 2013).

O leite contaminado por iodo pode afetar especialmente, as crianças, pois é a faixa etária em que a tolerância ao iodo é menor. Assim, é importante que alimentos como o leite tenham sua concentração de iodo controlada de forma a proporcionar ingestões adequadas.

Por outro lado, com os hábitos da vida moderna, o que se tem observado é um aumento na ingestão de iodo cujo excesso também pode provocar distúrbios no metabolismo da tireoide e ocasionar sintomas semelhantes aos ocorridos em situações de deficiência (Castro et al., 2010).

O iodo contido no leite de vaca tem como sua principal origem a dieta do animal. Estima-se que entre 80 e 90% do iodo ingerido pelas vacas é absorvido e a maioria do iodo que não é captado pela glândula tireoide é excretada via urina e secretado juntamente com o leite (Miller et al., 1988). Estima-se também que a transferência de iodo da dieta para o leite é na ordem de 7 a 27%, dependendo da quantidade de alimento consumida pelo animal (Kaufmann, 1998; Norouzian et al., 2009). 

Resultados de pesquisa mostraram que a forma de aplicação da solução iodada (dip x spray) aumentou a concentração de iodo no leite de 295 para 655 µg/kg, respectivamente e quantidade de iodo ingerida de 0,3 à 0,9 mg/kg na matéria seca aumentou de 301 a 482 µg/kg a concentração de iodo no leite.

Com base nestes resultados os autores sugeriram que se deve manter as concentrações do iodo menor que 400 ug/kg de leite, pois nesta concentração uma criança de três anos de idade teria que consumir mais de 0,5 litros de leite para exceder a ingestão tolerável de iodo segundo o Instituto de Medicina (IOM). Assim, para manter os níveis, foi recomendado que as soluções pré-dipping apresentem concentrações com 0,5% e que sejam usadas na forma de dip além de ser realizada a limpeza completa dos tetos antes da ordenha para que tenha um efeito menor sobre o leite. Já na alimentação deve-se fornecer menos de 1 mg de iodo por kg matéria seca (recomendação do NRC 2001 usar 0,5 mg/kg de MS) (Castro et al, 2010).

No entanto, para reduzir o risco de contaminação do leite, é interessante evitar o uso das soluções contendo iodo como principio ativo no pré-dipping, haja vista que não é sempre que a concentração de iodo da solução é conhecida. Além disso, devem-se seguir as recomendações nutricionais, usando os níveis adequados de iodo na dieta das vacas em lactação.

Referências bibliográficas

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Conrad, L.M., 3rd, Hemken, R.W., 1978. Milk iodine as influenced by an iodophor teat dip. J. Dairy Sci. 61, 776-780.

Flachowsky, G., Schone, F., Leiterer, M., Bemmann, D., Spolders, M., Lebzien., P., 2007. Influence of an iodine depletion period and teat dipping on the iodine concentration in serum and milk of cows. J. Anim. Feed Sc. 16, 18-25.

Galton, D.M., Petersson, L.G., Merrill, W.G., Bandler, D.K., Shuster, D.E., 1984. Effects of premilking udder preparation on bacterial population, sediment, and iodine residue in milk. J. Dairy Sci. 67, 2580-2589.

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Kaufmann, S., J. Kursa, V. Kroupova, And W. A. Rambeck. 1998. Iodine In Milk By supplementing feed: an additional strategy to erase iodine deficiency. Vet. Med.-Czech 43:173–178.

Miller, J.K., Ramsey, N., Madsen, F.C., 1988. The trace elements. In: D.C. Church (Ed.), The Ruminant Animal: Digestive Physiology and Nutrition. Prentice-Hall, Inc., Englewood Cliffs, NJ, pp. 342-400.

Newbould, F. H. S., D. A. Barnum. 1960 a. The effect of dipping cows teats in a germicide on the number of micrococci on the teat dip cup liners. J. Milk food Technol. 21: 348.

Norouzian, M.A., R. Valizadeh, Azizi, F., Hedayati, M., Naserian, A.A., Shahroodi., F.E., 2009. The effect of feeding different levels of potassium iodide on performance, T3 and T4 concentrations and iodine excretion in Holstein dairy cows. J. Anim. Vet. Adv. 8: 111-114.

NRC (NATIONAL RESEARCH COUNCIL) 2001.Mineral Tolerance Of Animals (Iodine). Washington, D.C.: National Academy Press.

O’Brien, B., Gleeson, D., Jordan, K., 2013. Iodine concentrations in milk. Irish J Agr Food Res 52, 209-216.

Ouattara L. 2013. Factors Determining The Risk Of Iodine Excess In Bulk Milk Tanks On Canadian Dairy Farms.

 

Fonte: https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao/uso-de-predipping-a-base-de-iodo-e-o-risco-de-contaminacao-do-leite-211325/  – em 21/11/2018