Por que o tamanho já não importa mais?

Henrique de Castro Neves

Quando a expressão “mundo VUCA” (1) foi criada na década de 1990, pelo exército norteamericano, para descrever o contexto pós 11 de setembro, certamente, nenhum dos envolvidos no batismo imaginou que 30 anos depois esta expressão estaria mais adequada que nunca em nossa realidade pandêmica. A cada dia, o mundo mais conectado tem evoluído cada vez mais rápido, além disso, diversas tendências foram aceleradas durante a pandemia, pelo fato das necessidades de o consumidor estarem diferentes, com novas exigências e expectativas, como por exemplo, a velocidade de entrega, seja de um bem ou serviço.

O período conhecido como “Era de Ouro do Capitalismo” ou “Boom Econômico Pós-guerra”, que teve início em 1945, logo após o final da segunda grande guerra mundial, se estendendo até o início dos anos 1970, proporcionou um crescimento econômico relevante em todo o mundo, com um aumento, igualmente relevante, no comércio internacional entre países afetados ou não pelo conflito. Nessa época houve também a consolidação ou mesmo o surgimento de grandes companhias transnacionais, que dado a seus tamanhos e capital, expandiram rapidamente suas operações e presença mundialmente, num período onde o tamanho da companhia fazia toda a diferença na abertura e consolidação da posição no mercado. Década após década, grupos e companhias multinacionais, bem como suas marcas, se tornaram conhecidas em todo o mundo.

Com o advento da internet e sua rápida popularização, na década de 1990, vimos surgir novas empresas, novas ferramentas de comunicação e novos canais de venda. Passamos a ter um mundo mais conectado e com literais infinitas possibilidades. Após a virada do século, as fronteiras começaram a ficar mais próximas e com a maior necessidade de viabilizar a logística internacional não só entre empresas, mas também para consumidores finais, pessoas físicas. Com isso, a pressão sobre todos os modais cresceu, em busca de eficiência e a boa e velha melhoria contínua.

Neste contexto, micro e pequenas empresas ganharam charmosos nomes de startups, e mesmo não tendo o porte de grandes organizações algumas possuem valor de mercado que superam grandes grupos mundo afora ou mesmo o PIB (2) de alguns países mundo afora. Além disso, estas entidades, em geral, interagem fortemente com a comunidade local, o que fortalece o vínculo e o sentimento de pertencimento.

Em pesquisas realizadas durante a pandemia, uma entrevista feita em julho de 2020, apontou que 23% dos consumidores brasileiros adultos afirmaram terem abandonado grandes marcas tradicionais, voltando suas compras de alimentos e bebidas para fornecedores locais/regionais de micro ou pequeno porte. A pesquisa abrangeu outros países da América Latina e houve grande alinhamento no comportamento dos consumidores, mesmo com nacionalidades diferentes. Como conclusão, o relatório apontou que as grandes marcas devem agir com maior velocidade e pulverizar mais seus pontos de venda, se quiserem alcançar esta parcela que já realizou a substituição dos produtos e sinalizou forte tendência de seguir realizando isso.

Com isso, fica a cada dia mais latente que o porte da empresa já não é mais o principal elemento para consolidação da presença de uma organização no mercado, pois a velocidade de resposta e a celeridade na inteiração com seus clientes ou consumidores, independente do tipo de empresa e do ramo de atividade é o que vem se mostrando como o diferencial. Resumindo o tamanho já não importa tanto quanto a velocidade, portanto, se quer que seu negócio sobreviva nos próximos anos, preste atenção se já é ágil e, principalmente, como não perder esta característica na medida em que a empresa cresce.

 

1VUCA é o acrónimo das quatro características que o mundo atual vive: Volatility/Volatilidade, Uncertainty/Incerteza, Complexity/Complexidade e Ambiguity/Ambiguidade.

2PIB significa o Produto Interno Bruto, basicamente a soma de todas as riquezas produzidas em um país.