O mito do leite inflamatório começa a ruir diante das evidências
A ideia de que o leite causa inflamação circula há anos entre consumidores e nas redes sociais, mas as evidências científicas indicam que, para a maior parte da população, essa associação não encontra respaldo consistente. Mais do que isso: alguns compostos presentes nos laticínios podem até exercer efeitos anti-inflamatórios. Segundo especialistas, muitas críticas aos laticínios desconsideram décadas de pesquisas sobre seus efeitos nutricionais e metabólicos.
O que os estudos observaram
Dados de estudos populacionais indicam que cada copo adicional de leite por dia esteve associado a reduções de 13% no risco de síndrome metabólica e diabetes tipo 2, 19% no risco de obesidade e 12% no risco de doenças cardiovasculares. A própria especialista ressalta, no entanto, que esses resultados representam associações observadas e não comprovam uma relação direta de causa e efeito.
Inés Moreno Sánchez explica que a ideia do leite como naturalmente inflamatório não é sustentada pela literatura científica para a maior parte da população. Ela destaca que cerca de 90% dos europeus apresentam persistência da lactase, adaptação genética que permite a digestão da lactose também na vida adulta.
Compostos com potencial anti-inflamatório
Entre os componentes destacados pela especialista está a lactoferrina, proteína capaz de se ligar ao ferro livre no organismo e reduzir o estresse oxidativo. Produtos lácteos fermentados também contêm ácidos graxos de cadeia curta, associados em alguns estudos à redução da inflamação intestinal. Outro grupo relevante são os peptídeos bioativos, formados durante a digestão das proteínas do leite, com ações semelhantes às observadas em medicamentos para controle da pressão arterial.
O leite integral também entra na discussão
A gordura do leite integral contém mais de 400 tipos diferentes de ácidos graxos. Estudos mencionados pela especialista associaram concentrações mais elevadas desses compostos no sangue a menor risco cardiovascular, menor incidência de diabetes tipo 2 e menores níveis de inflamação sistêmica. Pesquisas também observaram relação entre o consumo de leite integral na infância e menor risco de excesso de peso, possivelmente pelo maior poder de saciedade do alimento.
Muito além do cálcio
Embora seja frequentemente lembrado apenas pelo cálcio, o leite também fornece proteínas de alta qualidade, vitamina B12, fósforo, potássio, magnésio e zinco. O cálcio dos laticínios apresenta alta biodisponibilidade, e as proteínas do leite oferecem todos os aminoácidos essenciais. A especialista lembra ainda que manter níveis adequados de cálcio e proteína é especialmente importante antes dos 30 anos, período em que ocorre o pico de massa óssea.
No conjunto das evidências apresentadas, a conclusão é que o leite não deve ser automaticamente classificado como um alimento inflamatório. Seus efeitos podem variar entre indivíduos, mas os dados disponíveis indicam que os laticínios continuam sendo uma importante fonte de nutrientes e podem fazer parte de uma alimentação equilibrada para grande parte da população.
Fonte: Edairy.news