Verão de recalls nos EUA expõe fragilidades na rede de segurança dos alimentos
Uma série de recalls alimentares ao longo do verão americano — incluindo jalapeños, frutas vermelhas congeladas, carne bovina e brotos de alfafa — voltou a atenção pública para a capacidade dos Estados Unidos de monitorar e responder a surtos de doenças transmitidas por alimentos. Entre os episódios, destaca-se um surto recorde de ciclosporíase ligado a alface americana processada, que já soma mais de 17 mil casos confirmados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) desde maio, além de quase 12 mil casos reportados ainda sob investigação, resultando em pelo menos 922 hospitalizações e duas mortes. As autoridades federais atribuem o surto à alface processada proveniente do centro do México, distribuída nos EUA pela Taylor Farms, fornecedora de redes como Target, Taco Bell, Whole Foods, Kroger, Walmart, Costco e Jack in the Box.
Especialistas apontam mudanças no padrão dos surtos
Apesar da repercussão, o número total de recalls registrados neste ano está dentro da média dos últimos anos — cerca de 48 milhões de pessoas adoecem anualmente nos EUA por doenças de origem alimentar. Ainda assim, especialistas dizem observar mudanças na escala e na gravidade dos episódios. Darin Detwiler, especialista em segurança de alimentos e professor emérito da Northeastern University, observou que os recalls recentes têm afetado múltiplos estados com mais frequência e estão cada vez mais associados a problemas ocorridos no início da cadeia produtiva — como água de irrigação contaminada em grandes fazendas —, o que amplia o alcance da contaminação e dificulta o rastreamento. Já Jennifer McEntire, microbiologista de alimentos e fundadora de uma consultoria de segurança dos alimentos, afirmou que os cortes de pessoal em agências federais não necessariamente aumentaram o risco de contaminação, mas podem ter influenciado o tempo de resposta às investigações.
Cortes de pessoal e orçamento atingiram CDC e FDA
Segundo análise do próprio veículo Stateline sobre dados do Escritório de Gestão de Pessoal dos EUA, o quadro de funcionários do CDC foi reduzido em 28% desde dezembro de 2024, enquanto o da FDA caiu 23% no mesmo período, após demissões promovidas pelo governo Trump em agências de saúde pública. As inspeções de instalações estrangeiras de alimentos — como a fazenda mexicana ligada ao surto de ciclospora — também caíram para os níveis mais baixos já registrados, e a equipe de vigilância de parasitas do CDC, responsável por responder a surtos, foi reduzida de 11 para três pessoas. O governo também adiou a exigência de que empresas cumpram novas regras de rastreabilidade alimentar, previstas em lei federal aprovada há mais de uma década, que segundo especialistas poderiam ter acelerado a resposta ao surto de ciclospora.
Redução no monitoramento de patógenos e impacto nos estados
O sistema federal-estadual FoodNet, usado para vigilância precoce de doenças alimentares, teve seu escopo reduzido: agora é obrigatório apenas o monitoramento de Salmonella e E. coli produtora de toxina Shiga, enquanto outros seis patógenos — incluindo a Cyclospora — passaram a ter rastreamento opcional. O governo Trump também encerrou US$ 5,78 bilhões em repasses do CDC a estados, recursos já aprovados pelo Congresso, mas ainda não utilizados. Michigan, epicentro do surto de ciclosporíase, foi um dos 23 estados que processaram o governo federal por conta desses cortes, e informou ter utilizado recursos próprios para reforçar a resposta local durante o surto. A Casa Branca, por sua vez, negou que cortes tenham afetado inspetores federais de alimentos ou a capacidade de resposta a surtos.
Fonte: StateLine
Imagem: IA