Corantes alimentares “naturais” também podem apresentar riscos à saúde
Uma série de estudos vem sugerindo associação entre aditivos alimentares — especialmente corantes e conservantes — e um maior risco de doenças crônicas, como câncer, diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares. Esse cenário levou fabricantes a reformularem produtos e aumentarem o uso de alternativas de origem natural. Entretanto, pesquisas recentes indicam que os riscos à saúde podem estar associados tanto aos corantes artificiais quanto aos naturais.
Estudo inédito sobre aditivos alimentares e doenças crônicas
Representando um dos primeiros estudos epidemiológicos em larga escala sobre a relação entre corantes, conservantes e doenças crônicas, pesquisadores analisaram 15 anos de dados da corte NutriNet-Santé.
Os participantes relataram histórico médico, dados sociodemográficos, hábitos de atividade física, estilo de vida e estado de saúde, além de registros alimentares periódicos de 24 horas contendo nomes e marcas dos alimentos consumidos. Os dados também foram cruzados com bancos de dados sobre composição de alimentos e informações da European Food Safety Authority referentes ao uso e exposição a aditivos alimentares.
Ao todo, foram identificados 37 corantes alimentares e 58 conservantes nos registros da corte. Os pesquisadores analisaram especificamente dez corantes e 17 conservantes consumidos por pelo menos 10% dos participantes, avaliando sua relação com diferentes desfechos de saúde.
Corantes “naturais” e artificiais associados ao diabetes tipo 2 e câncer
Os estudos observaram associações entre o consumo de corantes alimentares e um maior risco de diabetes tipo 2 e câncer.
O consumo mais elevado de corantes alimentares foi associado a um aumento de 38% no risco de diabetes tipo 2. Entre os principais compostos avaliados:
- O beta-caroteno (E160a), derivado de fontes vegetais como cenoura, óleo de palma e batata-doce, foi associado a um aumento de 44% no risco;
- A curcumina (E100), derivada da cúrcuma, apresentou aumento de 49%;
- As antocianinas (E163), de origem vegetal, mostraram aumento de 40%;
- O caramelo simples (E150a), obtido pelo aquecimento controlado de açúcares, apresentou aumento de 46%.
Em relação ao câncer, níveis mais elevados de exposição aos corantes foram associados a:
- aumento de 14% no risco de câncer em geral;
- aumento de 21% no risco de câncer de mama;
- aumento de 32% no risco de câncer de mama pós-menopausa.
O beta-caroteno (E160a) foi associado a um aumento de 16% no risco de câncer em geral e 41% no risco de câncer de mama. Já o corante caramelo simples (E150a) foi relacionado a um aumento de 15% no risco de câncer em geral.
Conservantes e risco cardiovascular
Os estudos também sugerem que conservantes amplamente utilizados podem estar associados a hipertensão e doenças cardiovasculares.
Participantes com maior consumo de conservantes não antioxidantes apresentaram:
- risco 29% maior de hipertensão;
- risco 16% maior de doenças cardiovasculares, incluindo infarto, AVC e angina.
Já os conservantes antioxidantes foram associados a um aumento de 22% no risco de hipertensão. No geral, os conservantes foram relacionados a um aumento de 24% no risco da doença.
Por que corantes naturais também podem oferecer riscos?
Especialistas destacam que os efeitos dessas substâncias dependem da matriz alimentar em que são consumidas. Características como composição, estrutura e pH dos alimentos influenciam a absorção e o metabolismo dos compostos pela microbiota intestinal e pelo organismo.
Além disso, interações químicas e físicas com outros componentes da dieta e do ambiente também podem modificar os efeitos biológicos dessas substâncias.
Um exemplo citado pelos pesquisadores envolve o beta-caroteno: estudos anteriores demonstraram que altas doses isoladas do composto, utilizadas em suplementos alimentares e associadas à exposição ao tabaco ou amianto, aumentaram o risco de câncer de pulmão. Em contrapartida, não foram observadas associações semelhantes para o beta-caroteno naturalmente presente em frutas e vegetais.
Fonte: Food Safety
Imagem: Magnific