Resíduos da laranja rendem substâncias bioativas de alto valor
Pesquisadores do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (DQ-UFSCar) desenvolveram uma técnica sustentável capaz de recuperar compostos bioativos de alto valor agregado a partir de resíduos da produção industrial de suco de laranja. O estudo identificou e isolou substâncias como a hesperidina — flavonoide com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias —, além de D-limoneno, valenceno e carboidratos solúveis. Os resultados foram publicados em fevereiro na revista Foods.
Uma matriz agroindustrial complexa
O processamento do suco de laranja gera diversos subprodutos — cascas, sementes, bagaço, óleos essenciais e águas residuais — que formam uma matriz de composição química complexa. Segundo os pesquisadores Antonio Gilberto Ferreira e Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva, docentes do DQ-UFSCar, esses resíduos ainda são pouco explorados em relação ao seu potencial químico, apesar do grande volume gerado pela indústria citrícola. A pesquisa contou com colaboração internacional do Institute of Sustainable Chemistry (Alemanha) e financiamento da FAPESP e do CNPq.
Métodos mais eficientes e sustentáveis
Para lidar com a complexidade das amostras sem tornar o processo longo ou agressivo, a equipe combinou ressonância magnética nuclear (RMN) — que permite analisar misturas complexas com preparo mínimo e sem destruir as amostras — com técnicas de cromatografia, usadas para separar e identificar as substâncias químicas presentes. A pesquisa também incorporou a extração assistida por micro-ondas, considerada mais eficiente e ambientalmente adequada, reduzindo etapas do processo tradicional.
Alto grau de pureza e novas aplicações
O método permitiu rastrear compostos de valor até no bagaço da laranja. A hesperidina isolada apresentou pureza de 87,66% por ressonância e 84,30% por cromatografia. A cromatografia também possibilitou identificar outras substâncias de interesse industrial, como alfa-pineno, sabineno, beta-mirceno e linalol. Um achado adicional: a alta concentração de limoneno na “água amarela” (resíduo líquido do processamento final do suco) foi apontada como o principal fator que dificultava sua fermentação — informação que ajuda a direcionar o tratamento adequado desse resíduo.
Do descarte à oportunidade econômica
Para os pesquisadores, o estudo abre caminho para estratégias de sustentabilidade e economia circular na indústria citrícola, reduzindo impactos ambientais e transformando um problema de descarte em oportunidade econômica — o resíduo do suco de laranja pode se tornar, assim, um produto de alto valor agregado.
Fonte: FAPESP
Imagem: Magnific