Como o aquecimento global potencializa a contaminação por micotoxinas

Como o aquecimento global potencializa a contaminação por micotoxinas

As micotoxinas são metabólitos tóxicos produzidos naturalmente por microfungos, capazes de contaminar diferentes culturas — de cereais a oleaginosas, especiarias e frutas — e associados a doenças graves e mortes. Segundo o Dr. Nik Iskandar Putra Samsudin, toxicologista da Universidade Putra Malaysia, o problema é tão antigo quanto a própria agricultura, e o agravante é que, até hoje, não existem estratégias de mitigação capazes de eliminar esse risco por completo.

Mais de 400 toxinas já identificadas, mas sem prevenção eficaz

De acordo com o especialista, já foram identificadas mais de 300 espécies de microfungos e mais de 400 tipos de micotoxinas e metabólitos — mas essa caracterização ainda não se traduziu em prevenção efetiva. Mesmo em quantidades mínimas, essas substâncias podem danificar órgãos vitais, afetar o DNA e suprimir o sistema imunológico, sendo particularmente perigosas por serem invisíveis e inodoras, sem alterar aparência, cheiro, sabor ou qualidade do alimento contaminado.

Estabilidade que resiste ao cozimento e à digestão

Do ponto de vista técnico, as micotoxinas são quimicamente e termicamente estáveis, o que significa que processos convencionais de cocção e processamento de alimentos não conseguem degradá-las — nem mesmo o ambiente ácido do estômago interrompe seus efeitos. Por serem moléculas pequenas, são facilmente absorvidas pelo organismo, podendo inclusive ser transmitidas de mãe para filho durante a amamentação.

O elo entre clima e contaminação

Segundo o especialista, o aumento da temperatura e dos níveis de CO2, somado a padrões climáticos mais instáveis, está criando condições cada vez mais favoráveis ao crescimento e à proliferação de fungos nas lavouras. O calor e a variabilidade climática também enfraquecem a saúde de plantas e animais, tornando-os mais suscetíveis a pragas, doenças e contaminação por micotoxinas — o que amplia a exposição humana tanto pelo consumo direto de grãos quanto pela carne de animais alimentados com ração contaminada.

Prevenção é o único caminho possível, por ora

Para o setor, lidar simultaneamente com micotoxinas já conhecidas, emergentes e “mascaradas” (que escapam dos métodos padrão de análise) já era um desafio — agora agravado pela variável climática. Segundo o especialista, a pergunta não deve mais ser se é possível impedir esse cenário, mas se os sistemas alimentares conseguirão se tornar inteligentes e resilientes o suficiente para prever e mitigar seus efeitos.

Recomendações práticas

Para consumidores, a orientação é priorizar marcas confiáveis e evitar a compra de grandes volumes de grãos, castanhas ou especiarias, consumindo-os antes que haja chance de desenvolvimento de mofo. Já para a indústria que trabalha com produtos de maior risco, como grãos e especiarias, a prevenção passa por manter recipientes limpos e armazenar os itens em ambientes frios e secos, evitando as condições de umidade e calor ideais para a proliferação fúngica.

Fonte: Food Navigator

Imagem: Magnific

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