Fabricantes de alimentos correm para se adaptar a usuários de GLP-1

Fabricantes de alimentos correm para se adaptar a usuários de GLP-1

Em um laboratório de testes em Omaha, nos Estados Unidos, executivos da Conagra têm avaliado produtos como ovos, batatas e linguiça, buscando entender se essas combinações ainda seriam satisfatórias para consumidores com apetite reduzido. A empresa, dona de marcas como Slim Jim e Hungry-Man, é uma das várias fabricantes de alimentos que testam formas de atrair até mesmo pessoas que não sentem mais vontade de comer.

Impacto financeiro pode chegar a bilhões de dólares

A capacidade dos medicamentos GLP-1 de reduzir a fome e alterar a saciedade ameaça transformar o modelo de crescimento da indústria de alimentos, historicamente baseado em vender o máximo possível. Projeções do Morgan Stanley indicam que até 55 milhões de americanos, ou 15% da população, devem usar medicamentos GLP-1 até 2035. Já o JPMorgan estima que os tratamentos podem retirar entre US$ 30 bilhões e US$ 55 bilhões em receita anual da indústria de alimentos e bebidas até 2030.

Consumidores relatam perda de interesse pela comida

Estudos conduzidos pela empresa de desenvolvimento de alimentos Mattson identificaram um padrão entre usuários de GLP-1: uma nova aversão a alimentos antes apreciados. Um efeito colateral documentado, chamado disgeusia, pode causar sabor metálico desagradável na boca — fenômeno que a ciência ainda não conseguiu explicar totalmente. Segundo especialistas, quando a comida deixa de ser prazerosa, o consumo tende a cair.

Empresas priorizam proteína e porções menores

Ao investigar o comportamento desses consumidores, a Conagra descobriu que usuários de GLP-1 preferem alimentos familiares, porém em porções menores e com mais proteína — nutriente recomendado por médicos para evitar perda de massa muscular durante a rápida redução calórica. A empresa tem desenvolvido receitas como macarrão com queijo e frango com 40 gramas de proteína, além de reformular sobremesas como o brownie da marca Duncan Hines para dobrar o teor proteico.

Testes de sabor e comportamento orientam o desenvolvimento

Além de testes sensoriais internos com funcionários, a Conagra realiza estudos de associação de palavras para identificar termos que atraem consumidores sem soar clínicos demais. Já a General Mills criou uma “persona digital” baseada em inteligência artificial, construída a partir de entrevistas, dados de redes sociais e vendas, para simular reações de consumidores GLP-1 a novos produtos — uma abordagem que ajudou a empresa a agilizar o desenvolvimento, incluindo uma nova marca voltada a esse público.

Cautela na comunicação com o consumidor

Apesar dos ajustes de formulação, a maioria das empresas evita direcionar produtos explicitamente aos usuários de GLP-1. A Conagra, por exemplo, prefere incorporar essas necessidades às preferências gerais de consumidores preocupados com saúde, lançando selos como “GLP-1 Friendly” em sua linha Healthy Choice. Já a Kraft Heinz tem mirado tanto usuários diretos quanto pessoas próximas a eles, promovendo formas de incrementar refeições caseiras com proteína.

Efeito é visto como duradouro pela indústria

Ainda há incertezas sobre por quanto tempo os usuários permanecerão em tratamento, já que estudos iniciais sugerem retorno aos hábitos alimentares anteriores após a interrupção do medicamento. Ainda assim, a chegada de versões em comprimido e a ampliação da cobertura por planos de saúde devem tornar os GLP-1 mais acessíveis. Para executivos do setor, diferentemente de modismos alimentares passados, essa mudança parece ser estrutural e duradoura.

Fonte: InvestNews

Imagem: Magnific

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